Programa Virando a Página - com Simone Arrojo
Rádio Mundial FM 95,7Mhz
Realizado em 18/01/2008

A Árvore e o Menino

Ouvi contar que existiu, certa vez, uma árvore antiga e majestosa, cujos galhos expandiam-se em direção ao céu. Quando estava na estação do florescimento, borboletas de todos os tipos, cores e tamanhos dançavam ao seu redor. Quando floria e dava frutos, pássaros de terras distantes vinham cantar sobre ela. Seus galhos, como mãos estiradas, abençoavam os que vinham e sentavam-se à sua sombra. Havia um pequeno menino  que costumava brincar embaixo dela, e a árvore desenvolveu grande afeição por ele. 

O amor entre o grande e o pequeno é possível quando o grande está consciente de que todos somos iguais perante nosso criador. O grande que não é sábio tem sempre o ego como preocupação principal, mas, para o amor, ninguém é grande ou pequeno. O amor abraça e abençoa seja lá quem for que esteja por perto. 

Assim, a árvore amava o menino que costumava brincar por perto dela. Seus galhos eram altos, mas ela se curvava e os inclinava para baixo, de modo que o menino pudesse colher suas flores e apanhar seu frutos. O amor está sempre pronto a se inclinar, e o ego nunca está pronto para curvar-se. Quando nos aproximamos do ego, nossos galhos se estendem ainda mais para cima. O ego se estica para que ninguém possa alcançá-lo.  

A criança vinha brincar e a árvore ficava sempre muito feliz quando ela apanhava suas flores e seus frutos. O amor está sempre muito feliz quando pode dar alguma coisa, e o ego está sempre feliz quando consegue tomar. A pessoa torna-se rei (ou rainha) quando as flores do amor estão presentes, mas torna-se muito pobre quando os espinhos do ego a dominam.

O menino ia crescendo e vinha cada vez menos brincar com a árvore. Algumas vezes vinha descansar em seus galhos e a árvore ficava radiante de alegria. O amor é feliz quando dá conforto a alguém, e o ego é feliz apenas quando dá desconforto.  

Com o passar do tempo, outros afazeres e obrigações vieram ocupar o menino. A ambição material e profissional cresceu, e ele “não mais tinha tempo” de visitar a árvore. Mesmo assim a árvore espera pelo menino dia e noite. O amor verdadeiro é paciente, e sabe calmamente esperar dia e noite. A árvore ficava na esperança de poder oferecer algo mais ao menino. O amor traz enorme felicidade quando pode ser compartilhado. Quando pode doar-se totalmente, o amor é muito feliz. 

Na medida em que crescia, o menino vinha cada vez menos. A pessoa que se torna “grande”, cuja ambição cresce, encontra cada vez menos tempo para amar. O menino, nessa altura, estava absorvido pelas ocupações do mundo. 

Um dia, quando o menino estava passando, a árvore lhe disse: “Estou sempre esperando por você, mas você não vem. Eu espero todos os dias”. 

O menino disse: “Qual sua profissão?  O que você possui? O que você pode me oferecer? Você tem dinheiro?  Estou à procura de poder e de dinheiro. O ego está sempre motivado e pronto a obter algo. Só vem quando há algum propósito a ser preenchido. Mas o amor não precisa de motivação pois ele é sua própria recompensa. 

A árvore ficou surpresa e disse: “Você somente virá se eu lhe der algo?” O ego acumula, mas o amor dá incondicionalmente. O ego pede dinheiro porque precisa de poder. A árvore pensou por um minuto e disse: “Colha meus frutos e venda-os. Assim, você obterá dinheiro”. 

O menino ficou radiante. Subiu na árvore e colheu todos os seus frutos, até mesmo os que estavam verdes. A árvore ficou muito feliz, apesar de muitos galhos quebrados e folhas ao chão. O verdadeiro amor é feliz mesmo machucado, mas o ego nunca está feliz pois sempre deseja algo mais. A árvore nem notou que  o rapaz nem olhara para trás para agradecê-la. Seu agradecimento vinha da felicidade ao doar-se. 

O rapaz não voltou por longo tempo. Ele havia ganho dinheiro e estava ocupado em multiplicar mais e mais as suas posses. 

Um belo dia, a árvore chamou o rapaz, disse que o amava muito, e pediu que lhe desse um abraço. O rapaz já homem lhe disse: “Pare com este sentimentalismo infantil. Não sou mais aquela ingênua criança”.  O ego vê o amor como uma loucura, como uma fantasia infantil. Mas, a árvore insistiu. O homem lhe disse: “Pare com esta conversa inútil! E se as pessoas me verem abraçando você, o que é que irão pensar?”. O ego está sempre preocupado com as aparências, com o que os outros vão dizer ou pensar. Já para o amor a única preocupação é a da doação incondicional, independentemente de tudo o que possa ocorrer a sua volta. Disse ainda o homem: “Eu preciso de uma linda casa. Você pode me dar uma casa?”  

A árvore feliz exclamou: “Uma casa? Claro que posso! Corte meus galhos e faça uma linda casa de madeira”. 

Sem perder tempo, o homem trouxe um machado e cortou todos os galhos da árvore. Agora, ela era apenas um mero tronco. Mas, a árvore estava muito feliz. O amor esta sempre pronto e feliz em oferecer algo. 

O homem lamentando não ter madeira suficiente para o tamanho de casa que ele almejava, nem se lembrou de agradecer á arvore. O ego nunca é grato, sempre acha que pode obter mais e mais. 

Os dias tornaram-se anos e o homem tornou-se velho. A árvore, agora apenas um tronco, esperava e esperava, orava e orava pelo amigo,  mas ele nem olhava para ela. Um dia ela perguntou: “O que mais poderia eu lhe oferecer?” 

O velho lhe disse: “Eu necessito viajar para terras distantes, pois creio que lá poderei ganhar mais dinheiro”. 

Alegremente, a árvore disse: “ Corte meu tronco e faça um barco com ele. Ficarei muito feliz em poder continuar a ajudá-lo”. 

Imediatamente o homem trouxe um serrote cortou o tronco, fez um barco e navegou para terras distantes.  

A árvore, agora um pequeno tronco, continuava a amar e a orar pelo menino. Ela sabia que ele não mais voltaria pois ela não tinha nada mais a oferecer ao menino - rapaz - homem - velho. Ele somente conhecia a linguagem do ego. O ego só vai onde existe algo para ser ganho. É um eterno insatisfeito em contínuo estado de pedinte.    

A linguagem do dar, oferecer, compartilhar é a linguagem do Amor.

O Amor é um rei, um imperador, é a máxima expressão da caridade!

Existe algum rei maior e mais poderoso do que o Amor? 

(Estória de origem asiática)


 
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